A Jangada de Julio Verne

Uma idéia que sempre me fascinou foi a de que há milhares de anos o comércio atravessava a América do Sul e o Atlântico, indo parar no Egito Antigo. Antes de ser Solimões, o Urubamba corta de sul a norte o Peru. É possível imaginar aqueles barcos de junco de baixo calado fazendo toda essa travessia, desde o centro do Peru até o oceano. Solimões, Amazonas e Atlântico (tem uma variante pelo Juruá, muito mais navegável) e depois África e Europa. Agora leio esta beleza de livro que é “A Jangada”, de Julio Verne, de 1881. 350 páginas e oitocentas léguas através do Amazonas. Verne foi um cara extremamente culto, metódico e científico. Lia e anotava sempre o que poderia usar nos romances. Usava as melhores referências numa época em que quem fornecia as melhores referências eram a França e a Inglaterra. Algumas coisas, não poucas, errou em seus escritos, a maioria por excesso de confiança em suas fontes. Metade da viagem narrada em “A Jangada”, foi baseada num fato real documentado pelo viajante Paul Marcoy, que nos anos 50 e 60 do século XIX escreveu a “Viagem do Pacífico ao Atlântico, através da América do Sul”. A travessia somente, pois a “vila flutuante” foi idéia dele. Eu me lembro que há alguns anos atrás, antes daquela viagem comprobatória que não teve sucesso, conheci a teoria de que havia comércio entre o Peru (e arredores) e o Egito antigo (comprovado pela presença, nas múmias egípcias, de drogas que só existiam na América do Sul) e que as rotas fluviais iam do lago Titicaca até o Atlântico (Alias, talvez nem fosse comércio, e sim Tráfico). Fiquei muitas horas me divertindo riscando no Atlas rotas que satisfizessem isso. Encontrei uma que sai lá pelo Uruguai e outras pelo Amazonas, a mesma de Verne e de Marcoy (mais aquela pelo rio Juruá). O próprio lance da “ilha flutuante” pode ter vindo daquelas construções de palha e junco do lago Titicaca onde se pode morar em cima. De qualquer modo, é muito bom ver o que um escritor pode fazer com o tipo de informação que faz o cientificamente ignorante Jô Soares fazer aquelas piadinhas do tipo: “Na Universidade tal descobriram que...” que termina invariavelmente com “eu nem vou dormir direito hoje...”. Uma das inspirações de Verne para este romance, conforme Michel Rialdel, foi um encontro que teve com o casal conde d’Eu e princesa Izabel, em 1878 (esta, filha de D. Pedro II, ‘o cara’). No livro, Verne esbanja conhecimento geográfico (esse era o seu forte, eu chamaria o que ele fez de ficção científica geográfica) e da sociedade brasileira na época. Claro que existem alguns erros que fazem a felicidade daqueles críticos “carcarás”, que gostam de se fazer de entendidos atacando os pontos fracos de pessoas famosas. É muito fácil julgar hoje, nos tempos globais de internet, um escritor do século XIX, muito fácil achar erros. Mas os erros de Verne são erros de suas fontes ou exageros, coisa que ele gostava muito. Erros de datas (como a do “ventre livre”), de direita-esquerda (ele erra duas vezes os lados dos afluentes), a do canhão no rio Amazonas, entre outras coisas são desculpáveis. Somem no meio da beleza de sua obra. Quando eu tinha uns 14 ou 15 anos, li quase toda aquela famosa coleção de suas aventuras. Tudo começou com uma revista “Revista da Educação e Recreação”, da qual ele era meio sócio e onde foram publicadas (de 1865 a 1912), em folhetins, dois terços de suas 62 “Viagens Extraordinárias”. Quando uma história acabava, era impressa em formato de livro, capa dura luxuosa, etc. A coleção brasileira imitava a francesa, capa dura, com ilustrações litográficas. Até hoje eu me amarro nisso. Não porque são livros “com figuras”, mas porque traz dois tipos de arte para um mesmo fim (estou falando de litografia, arte de artista de verdade, não os desenhosinhos que são feitos por computador, por caras que não sabem desenhar uma casinha em papel e lápis). Quem curte HQs sabe exatamente do que estou falando. As bestas intelectualóides de plantão, que acham que literatura é só Tchekhov, Joyce e Homero, perdem muito, e nem sabem, por terem essa visão de jumento. Este livro carrega humor (para quem é capaz de entender), mistura escafandros com poraquês, logogrifos com jurisprudência, honra com imoralidade, duelos legais com pena de morte e por aí afora. O que me faz pensar que coisas de Verne leram alguns críticos de seu trabalho. Eu tenho a impressão que quanto mais envelheço, melhor ficam suas obras. O caráter pedagógico de todos seus escritos é extraordinário (aliás, acho que foi ele que inventou a coisa) e, a não ser que você seja o próprio, você sempre tem algo a aprender com ele. Neste livro, ele apresenta um puzzle de encriptação. Até cita algo parecido que o A. Poe fez. Mas o dele é muito superior. Eu já tinha aprendido a mexer com esse tipo de coisa no “Livro dos Códigos”, de Simon Singh, mas isso não quer dizer que eu não tenha me divertido. Com Verne você se diverte e aprende. Sou capaz de imaginar bem poucas coisas em literatura que são melhores do que isso.