O Mário Bortolotto - hoje um escritor fudido de bom, dramaturgo, ator, cantor e o caralho a quatro - era um dos seminaristas que, no final da década de 70, tinham o único time de futebol de Apucarana do qual nunca conseguimos ganhar. Naquela época eu pensava que a literatura brasileira estava perdida, porque não havia nada que eu gostasse de ler que tivesse sido escrito na língua mãe. Hoje eu sei que andei lendo os textos errados e que também estava se formando naquela época um time com um novo jeitão de dizer as coisas, que hoje aprecio. O Mário é um desses caras. O texto abaixo pode ser encontrado em seu blog, o http://atirenodramaturgo.zip.net/index.html. Leiam e depois vejam se conseguem ficar longe do blog dele.
TEXTO DE MÁRIO BORTOLOTTO.
O velho entrou na casa e não reconheceu os quadros na parede. Havia passado a tarde empilhando galões de tinta e agora estava tentando lembrar das cores dos vasos na recepção da fábrica. Ficou olhando os quadros e não reconhecia as pessoas nas fotos. Ele então gritou: “Tem alguém aí?”
Ele não lembrava que morava com a filha. Ele não lembrava de sua filha. Ela apareceu na porta da sala. Seu sorriso iluminou o rosto do velho, mas ele não a reconheceu. Só gostou do fato de uma garota tão bonita estar na porta de sua sala exibindo aquele sorriso magnífico.
“Tudo bem, Pai?”
Ele sentou na poltrona e ficou olhando interrogativamente para a garota bonita que o chamava de Pai. Ela ligou o rádio e uma música triste tomou conta do ambiente. O velho sorriu e fechou os olhos. Se imaginou dançando com a garota bonita num começo de noite alguns minutos antes de ir para uma festa. Ele lembrou dos detalhes. E a garota bonita foi ganhando uma outra forma, um outro corpo, os cabelos mais ondulados, o olho ligeiramente azul, mas o sorriso era o mesmo. O tipo de sorriso que valia por toda uma vida de melancolia e infortúnio.
A garota ficou olhando para o pai e por um momento quase entrou em pânico, mas se sentiu aliviada quando o viu sorrir de olhos fechados abraçando o próprio corpo e se balançando daquele jeito que o Ray Charles costumava fazer quando ficava empolgado. Ela não conseguia entender que o pai estava partindo para algum lugar onde ela não poderia entrar. Ela não conseguia entender que o pai já não sentia medo. Ela ainda não havia se dado conta da situação. E ela se sentiu indefesa e desprotegida, mas quase feliz. Ela sabia que já haviam tirado tudo do seu pai, mas não conseguiram tirar sua capacidade de sonhar. E às vezes é só isso que um homem precisa. Às vezes é só isso que um homem pode ter.
Aí está Vênus neste Julho. Aquela pequena parte iluminada (18%) é responsável por Vênus ser o objeto mais luminoso no céu (excetuando a Lua e o Sol, evidentemente). Ano que vem, haverá um alinhamento com três planetas com TRÊS FASES diferentes. Será muito interessante.
Interessante a sombra da cratera Bessel. Mostra que o anel da boca da cratera não tem a mesma altura em todos os pontos. A sombra mostra dois chifres, indicando que as bordas anterior e posterior do meio, em relação à direção da iluminação solar, são mais baixas que ambas as laterais.
Acima, no centro da foto, podem ser vistas as sombras dos montes Caucasos, que ficam à direita da passagem que se vê entre o Mar da Serenidade (onde a Apollo 11 pousou) e o Mar das Chuvas. As sombras chamam a atenção por serem muito grandes. De fato, existem ali picos com 5,8 km de altura. É possível ver durante algumas horas de observação o comprimento dessas sombras diminuindo. A foto foi tirada com câmera CANON A510 posicionada atrás da ocular de um Celestron Newtoniano motorizado de 113 cm. Como a ótica é simples, pode-se notar aberração cromática na foto.
Recomendo esta canção. Jeff Bucley morreu afogado, uma história estranha durante uma viagem que fazia para gravar um disco. Grande perda.
Leonard Cohen's Hallelujah (cantado por Jeff Buckley) I heard there was a secret chord That david played and it pleased the lord But you dont really care for music, do you Well it goes like this the fourth, the fifth The minor fall and the major lift The baffled king composing hallelujah.... Hallelujah...
Well your faith was strong but you needed proof You saw her bathing on the roof Her beauty and the moonlight overthrew you She tied you to her kitchen chair She broke your throne and she cut your hair And from your lips she drew the hallelujah... Hallelujah...
Baby Ive been here before Ive seen this room and Ive walked this floor I used to live alone before I knew you Ive seen your flag on the marble arch But love is not a victory march Its a cold and its a broken hallelujah... Hallelujah...
Well there was a time when you let me know Whats really going on below But now you never show that to me do you? But remember when I moved in you And the holy dove was moving too And every breath we drew was hallelujah... Well, maybe theres a God above But all Ive ever learned from love Was how to shoot somebody who outdrew you Its not a cry that you hear at night Its not somebody whos seen the light Its a cold and its a broken hallelujah... Hallelujah...
Em Londres as apostas estavam em 98% para a Argentina. Eram os melhores de lá contra um grupo que a maioria dos brasileiros não conheciam nem metade no início. Veio o time do Dunga e acabou com a festa com 3x0. Bom, estas coisas acontecem. A Seleção Brasileira fez hoje um jogo perfeito. Tudo deu certo. Ao mesmo tempo, tudo deu errado para a Argentina. É mais ou menos o que a França sentiu na Copa de 1998. Achou que arrasou, que estava por cima. É bem capaz que muita gente realmente acredite que a filosofia utilizada foi boa e que o time era grande coisa. O que eu vi foi um time meia-boca que teve muita sorte num dia que o adversário teve pouca. A vantagem é que deu pra ver alguns jogadores se sobressaírem. Uns dois ou três realmente poderiam ser titulares de uma Seleção. Infelizmente, essa coisa populacha de que o resultado é o juiz definitivo de um trabalho é o que vale para a maioria dos mortais. Então eu nem vou tentar falar contra essa besteira de “isso foi pra mostrar para aqueles que nos criticaram...” e de “muitos criticaram nosso trabalho e a gente provou...”. Provaram o caralho, bando de retardados. O nome do jogo é Futebol e todos sabem que qualquer coisa pode acontecer nele. Mas numa coisa eu concordo com esses “entendido”. É sempre bom pra caramba ganhar da Argentina.
Três componentes do famigerado Liverpool, que na segunda metade da década de 70 ganhou de todos os times de Apucarana, exceto um, o do seminário de nosso próprio colégio. O Faisal, também reconhecido por Taturana, O Carranza, cujo apelido deve ser evitado e eu. Esses caras são amigos da juventude, daqueles eternos que te conhecem pelo que você é de verdade, e andaram décadas sumidos pelo Brasil. Agora estão por aí e de vez em quando nossa inteligência aflora e a gente consegue um tempo pra jogar conversa fora. Fomos ao Curityba, em frente ao Irish Pub. Bom vinho chileno que não parava de se teletransportar das garrafas para as taças, boa música na intensidade correta, uns petiscos tradicionais e a melhor lula da cidade. O que conversamos não vai dar pra contar aqui, mas posso garantir que ouvi as melhores análises existentes sobre o Antonio Saliere, de Amadeus (1985), e sobre as Pontes de Madison (1995). O resto não vai dar pra contar. Na saída, escolhemos um caminho à pé muito longo para que os níveis sanguíneos de C2H6O pudessem baixar para valores não criminosos. Eu tinha acabado de gabaritar o teste de renovação da Habilitação e pela primeira vez na vida estava com zero pontos na carteira. Não dava pra dar mole. Foi bom. A gente tem que repetir.
Desde que o Padre Egidio me mostrou a Lua, na minha cidade natal, pelos meus 14 anos, através de sua velha luneta 60mm italiana, nunca mais deixei de olhar para cima. Há alguns anos, voltei para lá e o agradeci (ainda está vivo), não só em meu nome, mas em nome de todos aqueles que foram influenciados por mim e, consequentemente, por ele. Aqueles que tiveram seus rumos de vida alterados (para melhor eu quero crer) pelo ato generoso de satisfazer a curiosidade de uma criança. Nosso encontro foi um momento desses que a gente carrega pro resto da vida. Eu, um ateu e ele, um arauto de Deus dedicado. Ele me deixou ver em seu sorriso que ele percebeu que minha alma tinha sido salva por suas mãos, já naqueles tempos, e não importava o mínimo o pequeno detalhe de eu não acreditar num Deus. Apertei aquelas mãos sabendo que provavelmente seria a última vez que nos veríamos. É difícil nos despedir de alguém tão caro assim. Mas de qualquer forma, hoje sou um Stargazer não muito dedicado, mas persistente. Abaixo estão algumas brincadeiras que tenho feito. Estou aprendendo algumas técnicas de stackiamento. Acho os programas disponíveis muito fracos e sei que o pessoal da UTFPR (meu irmão incluído entre os especialistas de processamento de imagens) pode melhorá-los. Aos poucos a gente vai tocando isso. Abaixo, resultados de multiplas exposições onde se utilizou um telescópio Celestron 130 motorizado, uma câmera CANON A510, e o programa ORION Starshoot. De cima para baixo, as estrelas A e B do sistema triplo de alfa-centauri (o mais próximo de nós). Em seguida, o resultado de 10 exposições muito curtas de Júpiter no dia 9 de julho. Finalmente, uma figura ilustrativa dos tamanhos relativos entre as estrelas A e B da primeira foto e nosso Sol. A estrela "próxima" é a que realmente está mais perto de nós. Interessante é que a estrela mais próxima de nós, por ser muito pequena e apagada, não é visível, nem mesmo a um telescópio de médio porte. Mas isso não deve ser nenhum incentivo para que desavisados acreditem naquela besteira da Nêmesis.
Uma noite bonita no mirante da minha casa. Telescópios montados e esses caras pra lá de gente boa me acompanhando no vinho. Da esquerda para a direita, eu (de lente e já "molhado"), o Bruno Marchesi, o chefe dos magos, o Bernardo, o mais novo iniciado em Astronomia, o Fábio Kurt, meu irmão de luta e de sangue e o Hugo Neto, recém chegado do doutorado nas terras da cerveja choca.
Quinta passada fui banca da defesa do Raul Oliveira, grande cara, grande pesquisador. Agora, tenho que chamar o cara de Dr. Raul. Lá pelas tantas da defesa eu me peguei sorrindo por um fato bem interessante, pelo menos para mim. Numa defesa de tese, aparecem coisas como alças de poliamida, campânula de teste e membranas de polisopreno que, como conheço os trabalhos, sei que querem dizer linha de pesca e pote plástico cortado e camisinha, comprados nas Casas Bahia e nas melhores farmácias do ramo. Essa última fica por conta da doutoranda Gra Maeoka, nossa camisóloga.
Quinta passada, última semana de provas, eu entrei na minha sala para dar aula e tinha um grupo de quatro estudantes que eu não conhecia sentados numa roda de carteiras. Falei que eu teria aula, aplicaria a última prova do semestre, ali em instantes e eles se apressaram para achar outro lugar. Cheguei perto e perguntei? "Jogando Truco?" e veio a resposta: "Não, professor...fim de semestre... estudar é o último recurso da galera!". Sem comentários...
Li o Caçador de Pipas, de Khaled Housseini. História legal. A gente aprende muita coisa sobre o Afeganistão, costumes, etc. Fala sobre vida dura, escolhas erradas, culpa, redenção, etc. Mas literariamente é um livro até medíocre. Cheio de receitas prontas, como se fosse um trabalho final dum curso de letras. Cheio de erros de descrição. Perde feio para qualquer Harry Potter. Sua força está mesmo é na brutalidade da história, o que já é alguma coisa.
Primeiro eu gostaria de esclarecer que não sou fã do tal Wagner Love (nem quando ele jogava no meu time, o Palmeiras) e que também não achei o jogo Brasil 3 x 0 Chile nem um pouco bom. Mas dizer que foi o Robinho que ganhou aquele jogo é, no mínimo, assinatura de ignorância sobre futebol. As pessoas supersimplificam as coisas e gostam de ter a opinião da maioria ou que ela seja igual à que foi passada pela TV. ENtão vamos lá: O primeiro gol foi de pénalti. Quem levou o penal? Wagner Love. Robinho só cobrou (e muito mal) e fez 1x0. No segundo gol, Wagner Love domina uma bola pra lá de venenosa, vindo forte e do alto, com adversários em seu lado (só essa dominada já vale o ingresso)... domina e dá com mel e açúcar pro Robinho que faz 2x0 (tudo bem que outro mané não daria aquele toquinho e esbarraria no goleiro...). No terceiro gol, o Robinho dá uma puta duma meia lua num cara, outro drible de cisalhar vértebras e só pôde chutar no canto e fazer os 3x0 por quê? Porque Wagner Love puxou a defesa e o goleiro para o lado dele. Tudo bem, também, que ele só fez estas três coisas no jogo, mas foi o que possibilitou os 3 gols pelo Robinho. Então, porra, não fiquem babando no saco do cara, ele é bom pra carai, MAS não foi ele quem "ganhou" o jogo. Teve uma copa aí, acho que à de 1978, que o grande Jorge Mendonça (também do grande Palmeiras) participou diretamente de todos os gols do time, mas não fez nenhum. Ouvi neguinho dizendo "tira ele, não faz gol... pra que que serve?". Tá bom. Fazer o quê num pais que tem 180 milhões de técnicos? Onde até um Caio Jr. se diz um técnico? Como dizem umas amigas aí: Pracabá!
Ontem de noite eu estava quebrado de uma partida de futebol. As pessoas não podem imaginar o que é uma quebradeira de futebol para um cara de 45. Eu só queria me encostar num canto e me imaginar num estaleiro, sendo consertado por dentro. Aqueles milhões de proteínas, metabólitos, mensageiros, detetores, engenheiros microscópicos que conseguem manter nosso corpo coeso por uns 60 anos. O sistema mais impressionante da natureza, esse sistema imunológico. Mas não era disso que eu queria falar, eu estava só a fim de me encostar e minha mulher, que estava saindo pra fazer qualquer coisa, me chamou para o térreo. Fui a contragosto, tentando não reclamar da dor a cada passo. Minha mulher disse: "Venha ver que legal, Vênus ao lado de uma estrelinha. Está bem bonito". Esqueci a dor. Sempre me impressiono com alguém capaz de ver a beleza dessas coisas, mesmo que seja alguém que está ao meu lado há mais de duas décadas. Olhei e disse: "Não é uma estrela, é Saturno... e realmente está legal!". Disse isso porque estava mesmo e porque me fez esquecer da vontade de fazer nada e porque tinha decidido subir e montar o telescópio no meu "upper deck", meu mirante, meu "observatório". Não sei como consigo fazer isso. Saturno é uma coisinha parecida com uma estrela, igual a qualquer outra estrela e sei instantaneamente quando é ele, só pela cor. Ontem estavam tão próximos que a perspectiva de tirar uma foto com os dois no mesmo campo telescópico era irresistível. Lá em cima, mostrando as minhas filhas o crescente de Vênus e os anéis de Saturno, praticamente no mesmo campo, percebi que estava dando uma jóia a elas, daquelas que só bem mais tarde nos damos conta. O resto foi muito técnico. Quando minha mulher pediu para minhas filhas não ficarem andando que ele "queria ver", eu me lembrei de porque as fotos que tentamos tirar, o Bruno e eu, durante alguns encontros, não dão certo. Sempre tinha gente muito perto. Embora os telescópios que eu uso atualmente tenham acompanhamento, uma pessoa que ande normalmente pela casa pode provocar vibrações no telescópio suficientes para estragar uma foto o para fazer com que o objeto trema tanto que a gente não consiga ver direito. Daí, sozinho depois, fiz uns experimentos com o meu Celestron 15 cm (às vezes reduzido para 6 cm), simplesmente posicionando uma câmara digital no lugar do olho, com tempo de abertura de frações de segundo. Isso numa noite de lua cheia. Fico imaginando fazer isso de modo não tão esculhambado, com auxílio do computador e com o tubo que 25 cm que o Marcos Petricosky deixou sob meus cuidados. Abaixo: Saturno, Júpiter e Vênus, todos na última noite de junho. Nada mal.