Vi Tritão!!!

  Este post está meio fora de hora, pois não tenho tido tempo para muita coisa além do trabalho. Aconteceu na noite de 23 para 24 de maio. Fomos eu, o Elton e o Machado ( todos do CAUTEC) na observação astronômica do “Nevoeiro” (nevoeiro.org). Certamente esquecerei alguém do Nevoeiro, pois não sou bom com nomes ou com a memória, mas aí vão alguns deles: Leandro, Elaine, Martins, Filogônio, Otavio, Augusto, Celso, Pedro e não me lembro quem mais. Aliás, ainda não os associo aos rostos porque quase sempre eu os encontro na escuridão. O lugar é espetacular, é chamado de “cordilheira”. Como chegamos lá já no escuro e a gente costuma não usar lanternas fortes, sou incapaz de dizer quem e quantos estiveram por lá. O que me lembrarei por muito tempo é que estavam lá dois telescópios de 36 cm e um de 25 cm completamente motorizado e outros equipamentos de excelente qualidade. Na área de telescópios, tamanho realmente importa. Qualquer tentativa de listagem do que vimos naquela noite será incompleta, porque a gente viu coisa pra caramba. Mas só pra forrar a história, cheguei a ver cinco galáxias num único campo, excelentemente bem definidas, vi aglomerados que de tão definidos mostravam-se em “3D”. O céu não estava 100%. Era Lua nova, mas o céu apresentava uma claridade facilmente visível. Eu daria nota 6 (de 0 a 10) para o céu. Isto considerando que um céu realmente bom é aquele que a gente não vê se fundir com a escuridão do horizonte terrestre. Muitos meteoros foram vistos, eu vi 10, mas eram muito fracos e ordinários, nada comparados à chuva dos leonídeos que acontece em novembro, onde é possível vê-los de todas as cores, com magnitudes muito maiores e espetacularmente mais interessantes. Apesar disto, com aqueles instrumentos foi possível ter a noite mais produtiva de observação que já tive. Como o Machado se atrasou um pouco, tivemos que ir sozinhos unicamente com uma posição errada no GPS e as direções que tinham passado para o Elton (que nos levaram até lá). Paramos porque nos perdemos e aproveitamos para ver a passagem do Telescópio Hubble (entre 18h13 e 18h 21min). Chegamos ao lugar certo antes da passagem do ônibus espacial Atlantis (STS-125), entre 18h27min e 18h34min. Vou tentar uma lista daquela noite: Saturno; M 80, na constelação do Escorpião, M 42, nebulosa de Órion, muito bem definida; Ômega de Centauro, com sua infinidade de estrelas resolvidas e formando uma trama 3D estonteante; O Ghost of Jupiter (o da foto acima), ou fantasma de Júpiter, uma nebulosa planetária de um lindo azul que fica em Hidra [RA= 10h24m46.1s e dec= -18°38'32" (2000), que eu não conhecia e que vi através do 25 cm do Júnior (que estava lá com a Melissa e também com a Lu, que eu não via havia muitos anos. Aliás, tem uma história do Júnior que é boa: ele estava tentando me mostrar algo com uma ocular do tamanho de um copo e não conseguia que a imagem aparecesse. Fui dar uma olhada e achamos “dentro” daquela ocular uma outra que ele tinha dado pela falta havia algum tempo. Entenderam? Uma ocular que estava perdida “dentro” de outra ocular? Só pra dar uma idéia do calibre dos equipamentos desses caras); Vi também uma estrela vermelha lindíssima, uma cor que jamais vi no céu, e acho que foi perto do cruzeiro (fiquei sabendo depois que era a EsB 365 / DY crucis); NGC 6383 e NGC 6441, M6 e M7, do Escorpião, ETA Carina (o homúnculo) e outros asterismos por lá; M83, a galáxia espiral barrada de Hidra, que eu nunca tinha visto; a Nebulosa da Lagoa (M8) e a Trífida (M20) em Sagitário; Teve um aglomerado com aparência aracnóide tridimensional que foi fantástico, parecia que a gente realmente via a estrutura tridimencional (embora eu saiba que isso é muito improvável); A galáxia do ‘Sombrero’ (M104) com seu anel de poeira, que tive que preparar meus olhos para poder ver; A nebulosa da águia (M16); O aglomerado aberto da Borboleta, em escorpião (M6); O tripleto de galáxias em Leão; A Caixinha de Jóias no cruzeiro; A Nebulosa de Lyra (M57) [essa eu juro que vi melhor num instrumento menor feito pelo mago dos espelhos,  Sandro]; O aglomerado aberto do presépio ou “ninho de abelhas” em câncer; Júpiter foi fantático. Como o céu nascia atrás de um morro próximo e arborizado, pensamos que era um avião porque o “farol” estava muito forte e aumentou muito seu brilho enquanto olhávamos, mas era júpiter mesmo e vi diretamente sua grande mancha vermelha, com Io e Ganimedes de um lado e Europa e Calixto do outro. Estava fantástico aos 36 cm! Mas, na verdade, eu tinha ido lá pra ver a conjunção rara de Netuno com Júpiter (apareciam no mesmo campo visual), mais especifica e honestamente, eu tinha uma forte esperança de ver Tritão, o satélite de Netuno, com aqueles equipamentos que lá estavam. E vi! Isso merece um pouco de explicação. Netuno tinha uma magnitude de 7,9 e tritão de 13,5. Até aí, tudo bem, estava ainda dentro do que um 36 cm pode ver (perto de mag 14,8), mas tinha o tamanho angular de tritão (0,12 segundos de arco), teoricamente abaixo do poder resolutivo dos scopes de 36 cm (que é de 0,33 segundos de arco). A gente não sabia se daria pra ver. Após apontarmos direto pro bicho, eu tive certeza que vi. É o seguinte, baseado na experiência de ter visto duplas (alfa do centauro, por exemplo) com várias aberturas e equipamentos, sei como parece uma “dupla” quando ela está um pouquinho além do poder separador de um telescópio. Foi algo exatamente assim que vimos. Eu disse vimos! Várias pessoas confirmaram a mesma coisa, sempre com a protuberância na mesma posição do que os outros relatavam e de acordo com o previsto através de simuladores (Eu tinha levado todos os dados desse evento). Claro, se não soubéssemos que Tritão estava ali, seria cientificamente inválido (na verdade, com 30 segundos de fotos estaqueadas e promediadas, poderíamos provar isto facilmente) afirmarmos que havíamos visto a lua, mas como não era este o caso, posso afirmar com certeza que VIMOS TRITÃO!!! O meu celestron 13 motorizado nem saiu do carro. Pra quê? Peço ainda desculpas pelo uso de lanternas impróprias pois a minha lanterna vermelha pifou no meio da noite. Mas valeu tudo. Agradeço aos colegas do Nevoeiro pela experiência e pela sabedoria de se dedicarem exatamente aquilo que é o mignon da Astronomia, a observação. Vai ser difícil esquecer a emoção de mirar o céu com um 36 cm. Netuno estava mais de 6 vezes mais distante que Júpiter. Ver Tritão NÃO é pouca coisa. Para mim foi o máximo da festa. No caminho de casa, que encarei antes de terminar a madrugada, eu só tinha uma coisa na cabeça: VI TRITÃO!!!!