Jogando bola

 

Eu me lembro bem que quando criança a gente andava muito, de um sítio para outro em caravana de piás, quando muito acompanhado por alguém “quase de maior”. Eu não morava em sítio, mas a gente vivia andando pra todo lado e numa cidade pequena, tudo em volta é sítio e mato. Nessas andanças a gente nem levava água. A gente parava numa porteira e pedia água. O dono abria a porteira de arame e galhos e íamos todos para um poço. Liberávamos uma manivela de madeira e jogávamos um balde amarrado numa corda que era enrolada e desenrolada através da manivela. O balde batia lá no fundo e enquanto enchia fazíamos o ritual de olhar para o fundo do poço, uma a um, com muito cuidado porque cair num poço a gente sabia que era coisa séria. Geralmente o dono do lugar trazia o balde para cima. O balde era naquela época de madeira, mas as canecas que usávamos para tomar água eram de lata de óleo ou de alumínio. Até hoje me lembro do gosto que tinha aquilo, um gosto metálico de água de poço tomada na lata. Dividíamos o mesmo recipiente entre todos e nunca eu soube que alguém morreu por isso. Cortávamos caminho pelos campos e matas e o máximo que tínhamos era um “conga” ou um “kichute”, a maioria usava havaianas, que eram coisa de pobre antigamente. Hoje uma boa propaganda coloca havaianas nos pés de europeus por dezenas de euros. Tudo que ficava na beira da estrada era liberado, coquinhos, laranjas, tangerinas, mexericas, ponkans e havia muita variedade (não é como aqui no sul do Paraná que tudo que é cor de laranja mas não é laranja é mimosa). Você precisava entrar muito numa propriedade pra estar arriscado a levar tiro de sal na bunda, que era a coisa mais aterradora que faziam com piás. Eu e todos os moleques que tivemos a felicidade de viver isso não podemos dizer que somos sobreviventes, porque olhando para trás, vivemos de fato foi num paraíso. Eu fui conhecer TV só com 7 anos de idade, e ela começava pelas 15 horas e acabava antes da meia noite. Bola, só de capotão. Jogávamos um Futsal onde era proibido chutar de dentro da área do goleiro. Era um jogo completamente diferente do que é hoje. O gol era ainda mais valorizado, porque era mais raro (a regras foram mudadas justamente para que acontecessem mais gols). Moleque não fazia escolinha de futebol. Ficava era jogando o dia inteiro. E quando não dava pra jogar, ficava treinando sozinho ou com um ou dois amigos. Eu me lembro que treinava cabeçadas e batidas de escanteio. Uma vez, num jogo de escola de futebol de campo, fiz três (3)... sim, TRÊS gols olímpicos. Eu conhecia o campo, sabia usar o vento a meu favor e treinava efeitos na bola para os dois lados. Passei uns meses sendo chamado de Baroninho (um antigo jogador do Palmeiras, que fazia gols olímpicos). Eu também era goleiro e como todo moleque treinava com meus irmãos. Eu não era ruim não. Tenho um recorde em jogos oficiais (jogo oficial pra moleque é quando representa um time de colégio ou de bairro contra outros times) de 11 pênaltis invicto. Isso quer dizer que peguei 11 pênaltis seguidos. Isso naquele golzinho de mais de sete metros de largura por dois e quarenta de altura. Teve um dia que marquei 3 gols num jogo de campo que ganhamos de 4x3. Todos os gols que fiz foram passes diretos do meu pai. Uma lembrança dessas não tem preço. Como sou pai hoje, sei que deve ter sido bom para meu pai também. Quando olho pra trás, aqueles momentos jogando bola com amigos sempre me parecem a melhores coisas que tive. Quando me lembro de meu falecido pai, aqueles três gols e os momentos que passávamos eu, ele e meus irmãos, no sítio, quase sempre fazendo algo como cortando árvores, arando solos (com trator ou boi) ou simplesmente andando pelas plantações e matas com ele explicando sempre com poucas palavras o que eram aquelas plantas, como nasciam, como cresciam, como eram importantes para o Homem... estes são os momentos de felicidade em família que me lembro com mais carinho. Claro que tem muitos outros, mas ver meu pai como ele realmente era, era uma experiência quase divina, e só era possível se você estivesse trabalhando com ele (suponho que minha mãe e irmãs jamais o conheceram assim, por esse motivo), e esse foi um privilégio que eu, meus irmãos e alguns primos tivemos. E, por isso, acho que somos hoje todos um pouco melhores. Aprendemos com um gigante. Foi também meu pai que me iniciou no futebol. Um abraço, pai.... se e onde quer que esteja.

figura copiada de vemconoscovem.blogspot