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Poesia e Literatura
Morreu Arthur Clarke
Foda! Morreu Arthur Clarke, o cara responsável por eu fazer o que faço hoje. Depois faço algo mais caprichado...
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 00h16
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Lettras Mínimas
Recebi meus exemplares de “Letras Mínimas”, da editora Guemanisse, Rio de Janeiro, 2007. O livro é uma antologia organizada por Clarisse Maia-Guedes sobre os mini-contos e haicais (clássicos 5-7-5) finalistas e vencedores do concurso que a editora promoveu em 2007. Está lá um conto meu, o “Lectura”, um experimento reiterativo sobre passado e futuro. O livro coisas muito boas e algumas nem tanto. Tem lá um haicai do Sérgio Pichorim, meu colega de trabalho e especialista premiado nessa mídia poética, com coisas bacanas como esta: “A parede é o chão, / o velho quadro, a casa / de uma lagartixa.”. Interessante é que dá pra notar tanto pelo apresentação de Eunice Henriques, quanto pelas biografias dos 92 autores, que uma grande parte, senão a maioria, dos autores têm carreiras tecnológicas. Eu me sinto confortável em falar disso porque, como pesquisador, escrevo artigos científicos e como “metido a escritor”, escrevo lá minhas literaturas. Na ciência, as frases devem ser construídas visando a univocidade, i.e., devem ter somente uma maneira de serem compreendidas, devem ser inequívocas (nunca com mais de um significado). Na literatura, a coisa acontece quase ao contrário. Então, volta-me uma questão que uma repórter me fez nos anos 80: “Como é que se concilia, na mesma pessoa, o cientista e o poeta?” Não tenho uma boa resposta para isto até hoje. Conheço à de Nietzsche, "O homem artístico é a extensão do homem científico.". O que posso dizer, adicionalmente, é que o homem da ciência tem, à sua maneira, uma visão profunda de alguns aspectos do mundo e quando ele tem, também, certa habilidade literária (que nada tem a ver com escrever artigos), grandes coisas podem sair dali. É o que essa antologia, surpreendentemente (no meu ponto de vista, porque sei que a maior parte dos cientistas são tacanhos em literatura) parece mostrar. Uma surpresa feliz! Vou aproveitar este post para falar sobre publicação literária. Não sei se sabem, mas no Brasil, a figura de agente literário é virtualmente inexistente. Os editores declaram em simpósios que não lêem e não têm condição de ler os livros que lhes são enviados ou “propostos”. O caminho é o apadrinhamento por alguém que já é publicado e está nas graças do editor (daí, eles publicam ‘sem ler’). Isso não sou eu que digo, é o que editores declaram quase em uníssono nos encontros por aí. Isso faz com que quase sempre os primeiros trabalhos de um autor tenham que ser apadrinhado ou pagos. Nunca achei um caminho honesto esse da auto-publicação, que é quando se paga para imprimir o próprio livro, sempre tentei fugir disso, mas por aqui o sujeito quase não tem escolha. Conheço casos em que grupos disfarçados montam uma editora para se auto-publicarem sem que a coisa pareça isto. Não tenho nada contra, desde que seja um grupo grande com consciência crítica. Confesso que paguei “duzentinha” para estar nesta antologia e receber 10 unidades do produto, mas há uma diferença da auto-publicação. Neste caso, houve um critério de escolha e a oportunidade foi oferecida somente aos finalistas do concurso, algo muito próximo do que acontece com algumas revistas científicas, i.e., houve o mecanismo meritório inserido. De modo que estou em paz com minha consciência. Claro que é muito melhor ser publicado, como já aconteceu, sem se gastar um tostão. Vocês sabem como é, não? Eu tenho lindas filhas, já plantei árvores e quero me livrar da outra “obrigação”.
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 13h10
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Deckard era ou não um replicante?
Com os 25 anos de lançamento de Blade Runner no cinema (até participei de uma mostra especial sobre o filme, emprestando alguns livros), uma pergunta tem voltado, enquanto deveria estar sepultada há um quarto de século. Deckard era ou não um replicante? Replicante é, para os desavisados, uma variante não clichê para andróide. Vou só fazer uma contra-pergunta: no que é que isso muda o filme? Assim, “na real”? o que é que muda? Só vai ter um finalzinho besta em que todo mundo vai lembrar: “ohhhh, ele também era replicante!”.. e vão esquecer daquilo que o filme realmente fala. Ridley Scott, na época um cara ainda acusado de ser apenas um produtorzinho de filmes publicitários, conta que Philip Dick até ficou ofendido quando ele lhe disse que não conseguira ler o livro de contos (onde aparece o conto que inspirou Blade Runner) até o final (eu também sempre achei um saco o estilo do Dick), mas que teria ficado “eternamente grato” depois de ver os 10 minutos iniciais do filme. Dick morreu 5 meses depois desse ocorrido. Li há muito tempo os contos de Dick e desde Blade Runner e Total Recal eu sei que os filmes baseados em sua obra são melhores que na literatura (até onde eu sei, é o único autor com quem isso acontece, e olhem que o cara não é fraco, não). Mas no exemplo de Blade Runner, o filme, não existe um “Deckard” no texto; o próprio termo “blade runner” foi tirado dum roteiro não aproveitado de William Burroughs; “replicantes” foi um termo criado pelo roteirista David W. Peoples (veio de sua filha, estudante de Biologia e Química da UCLA) e o clima central do conto de Dick era a sociedade, vista através de um Zé-ninguém, onde os animais já não existiam e o status era medido pela capacidade de alguém ter ou não um animal de estimação. Este animal era sempre artificial. Aliás, ler o conto só serve para entender este aspecto do filme (que está “implícito” demais, assim como os animais em origami que aparecem frequentemente no filme). Blade Runner foi um desses filmes que alguém iniciado em ficção científica sabe (como soubemos na época) imediatamente que veio para ficar. Já está meio batida a idéia da Ficção científica associada às três perguntas da Esfinge, mas vou repetir aqui, porque isso explica, pelo menos para mim, porque é que a FC tem o potencial de ser o melhor e mais profundo gênero de todos. A FC é um dos únicos veículos que trata com conforto os três problemas básicos da humanidade: De onde viemos; para onde vamos e quem somos? Blade Runner trata com espetacular brilhantismo o “quem somos?”, dá um recado dum jeito poético e bonito para que reflitamos “de onde viemos e para onde vamos?” Hoje em dia tem alguns “especialistas” (carinhas na faixa dos vinte e tantos que acha que manja de cinema) dizendo que o filme só foi (re)descoberto quando lançado em VHS. Bobagem! Lembro muito bem de que quando vimos o filme, eu e mais uma porrada de amigos cuja opinião respeito, já sabíamos que seria um clássico. Agora, vamos esquecer essa bobagem de Deckard ser ou não replicante. Não interessa porra nenhuma para o filme. Se você acha que interessa, veja de novo o filme através de um ponto de vista menos “Sabrina”.
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 21h55
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Juanico
Juanico di Salvo é um chileno que adotou o Brasil como pátria, mesmo não tendo motivo nenhum para chamar qualquer lugar de pátria. É um Engenheiro elétrico experiente e se tudo der certo, trabalharemos juntos em estudo de descargas elétricas em altas frequências, meu atual tema de estudo. Mas o mais interessante de Juanico são suas habilidades extra-científicas. Já na entrevista, por causa de suas unhas, saquei e ele confirmou que tocava instrumento de corda "exótico" (para nõs, claro). Mais tarde, por e-mail, fiquei sabendo que escrevera alguns livros. Pedi pra ver e ele me presenteou comdois. Li o "Bicho del Paraná". Fantástico. Humor inteligente e não convencional, sem clichês e com umas tiradas imperdíveis. Seu personagem preso Tiroliro é uma obra prima que merecia mais que um livro extra. Desconfio que seja extremamente difícil topar com um livro seu e por isso, para quem quiser saber como achar, me mande um e-mail que eu faço o serviço de contato.

Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 16h47
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Arthur Clarke é mesmo o cara!
Acabo de ler "missão de salvamento", publicado pela primeira vez em 1946 e escrito um ano antes. Não me lembro de tê-la lido antes, o que acho estranho, uma vez que me considero um leitor assíduo do autor. Por muito tempo foi considerada a melhor história de Arthur Charles Clarke (1917-), que vive hoje em Sri Lanka. Há até uns anos atrás ele respondia cartas de próprio punho. Atualmente envia respostas prontas e genéricas. Há muito tempo está doente e sem condições de locomoção. Não seria exagero dizer que minha formação científica é em grande parte moldada por este escritor de ficção científica. De boa e verdadeira ficção científica, que é aquela em que a ciência é um personagem ou fator essencial para o funcionamento da história. Não sou desses que colocam os gêneros de Terror e Fantasia no mesmo balaio da Ficção Científica. Admiro a Ficção Científica Campbelliana (ou para ser bairrista, a definida por Bráulio Tavares, ou "brauliana"). Não estou interessado em classificações nem em quem disse ou não disse isso ou aquilo sobre essa literatura. O que me interessa em FC é sua capacidade de abrir os horizontes do leitor, de quebrar paradigmas, de surpreender com uma idéia nova, de realmente modificar. A maioria da literatura está centrada na idéia de que é uma coisa através da qual podemos saber e entender quem somos. A FC está baseada na idéia de que podemos saber e entender quem podemos ser. E é por isso que muita gente boa a despreza, porque não consegue ver a diferença, porque não consegue dar importância ao "vir-a-ser" e fica chafurdando eternamente no mesmo chiqueiro (não que daí não tenha saído obras estupendas). Mas eu estava falando do Clarke e de como considero a FC. Considerando a FC como aquela onde a ciência é o fator mais importante, não há como tirar de Clarke o posto de melhor do ramo. Não tem concorrência. Nesta história de pouco menos de 40 páginas estão, por exemplos, todas as idéias da mitologia de Star Trek, a franquia de maior sucesso no século XX. Estão lá a federação (que era anterior aos humanos); as idéias de que o Homem tem muito a ser admirado, apesar de suas cagadas homéricas no passado e presente, e que também tem muito a ser temido (o final é fantástico, do tipo que gosto, curto, repentino e inesperado). Mostra que conhecia profundamente a Astronomia da época, as telecomunicações. A passagem "os engenheiros... como sempre, realizaram o trabalho em metade do tempo que haviam considerado como absolutamente impossível." é certamente a semente geradora do Engenheiro Montgomery Scott da nave Enterprise (de Gene Rodenberry). Em suma, um conto de primeira. Encontrei-o na "Antologia do Espaço", com prefácio de Fausto Cunha, ed Cátedra (1975), que arrematei da coleção de um prezado colega. Recomendo.
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 15h42
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Lançamento do 'Quânticos' do Carneiro

Aconteceu hoje no Beto Batata o lançamento de "Quânticos da Incerteza", de André Carneiro. O Musta leu uns 4 textos do livro com acompanhamento da Carol no piano e do Manchinha no acordeon. Conheci umas figuras interessantes, tive uma aula sobre trovas, vi exemplos de gastronomia equivocada e o que valeu mesmo foram os três Chopps (tempo que durou o evento) que tomei batendo papo com o Hugo Neto e, obviamente, o livro. O Clair também baixou por lá. Na foto estão o músico Maurício, filho do André, o próprio André Carneiro autografando, a moça do casal ao fundo é a filha do Musta e as outras pessoas me fugiram da memória. São 200 páginas de poesia imperdível (isso alguns meses depois de lançar o "Confissões do Inexplicável", pela Devir, com 600 páginas de contos. No final do livro tem a Bibliografia do Carneiro. Eu já tinha lido a maioria desses textos há muito tempo (gentileza do André deixar que vejamos suas coisas inéditas), de modo que posso assegurar que é coisa da boa. Tem uma história curiosa que vem a calhar. Há alguns anos achei na minha caixa de correio (que fica na grade da casa, dentro de um condomínio fechado fechado) uma poesia impressa e sem autor. Era uma coisa muito bonita, muito boa e muito interessante sob vários aspectos. Achei muito estranho. Ninguém que eu conhecia sabia escrever tão bem e ao mesmo tempo tinha acesso à minha caixa. Uns quarenta dias depois, numa das pizzafiction, o mistério foi resolvido. Era uma poesia do Carneiro que o Machado tinha colocado em minha caixa só para zoar. Não entendi direito a graça, mas gostei do privilégio de lê-la.
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 23h41
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NOBEL de Literatura sai para escritora de Ficção Científica
NOBEL de Literatura sai para escritora de Ficção Científica
A noticia poderia ser legal: "Escritora de Ficção Científica ganha NOBEL de literatura"
Tive um susto hoje de manhã quando ouvi pela CBN que Doris Lessing tinha ganhado o prêmio NOBEL de literatura. A manchete acima poderia ser muito legal, não fosse o fato de Doris Lessing ser muito pouco considerada dentro da Ficção Científica. Eu nunca consegui ler nenhum de seus livros e não foi por falta de tentativa. Mas isso não quer dizer nada, não sou exatamente um especialista em literatura. Leio porque gosto do resultado. Só isso. Não estou dizendo que a mulher não mereça, mas acho os critérios bem bestas... ganhar pela "criação de épicos da experiência feminina" não convence muito. O Vargas Lhosa era um cara que estava na parada e dançou.
Mas há sempre o lado bom. Ela já foi convidada de honra (e homenageada pela série de 'Canopus in Argus") no WORLDCON-87 e fez discurso sobre a mesma obra que falei mal, "memórias de um sobrevivente". Isso quer dizer que muita gente do mundo SF gosta dela. Pelo menos tem uma coisa muito legal nela, ela nunca hesitou em dizer que era escritora de Ficção Científica.
Pensando melhor, até que a notícia É legal !
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 23h36
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A escuridão e o Boitatá
O Boitatá é uma figura mitológica brasileira (folclore), representada pela cobra de fogo (também um touro de fogo ou que bafeja fogo). Conta-se que a cobra de fogo foi forjada numa época de grande escuridão, quando todos pensavam que o dia jamais voltaria. A Boiguaçu (cobra-grande) que adorava comer olhos, matava os animais que estavam fracos e amedrontados por causa da escuridão (que não terminava) e só comia seus olhos. Por comer tantos olhos, foi ficando cada vez mais brilhante, um brilho azulado, frio e triste, e ao mesmo tempo foi ficando fraca (pois os olhos não nutrem bem), até que morreu. Seu nome mudou para Boitatá (cobra de fogo). No instante de sua morte, o dia voltou e Boitatá foi amaldiçoado a cuidar dos pântanos, bosques, florestas e cemitérios (não por acaso, justamente os lugares onde o fogo-fátuo é visto). Este mito, para mim, fala do desamparo que podemos sentir quando as coisas que conhecemos deixam de funcionar da maneira que sempre funcionaram, ou da que esperamos que funcionem. Não sei se o mito influenciou, conscientemente ou não, as obras que vou citar. Não pretendo fazer um estudo do caso, mesmo porque não sou um especialista e nem pretendo deixar parecer que li tudo sobre o assunto. Sou só um interessado que por causa da lição de casa das filhas, juntou três ou quatro pedrinhas numa mesma bacia. De qualquer forma, é uma questão que acho muito importante. De certa forma, embora sua “noite” não fosse tão longa, Richard Matheson trata da mesma coisa em “Eu sou a Lenda” (obra que está prestes a ser passada, não pela primeira vez, para o cinema). “Demônios”, de Aluísio de Azevedo, do final do século XIX, antes mesmo do sucesso de H. G. Wells, também usa a temática. Neste conto, até as coisas internas iam perdendo a força, a “noite” chegava para “todas” as coisas, como em : “Afinal, já não era só a palavra falada que nos fugia, era também a palavra concebida.”. E tem também a palavra final sobre o assunto, do grande poeta e escritor André Carneiro (com quem tenho o privilégio de passar algumas horas por mês conversando sobre literatura), em seu conto “A Escuridão” (que está prestes a ser transformado em filme pelo cinema espanhol). Nele, a escuridão resolve tomar conta do mundo não só pela ausência de luz, mas pela extinção gradativa da própria luz das estrelas, da chama de um fósforo, do enfraquecimento do fogo e coisas que levam lentamente a alma humana para um estado quase inconcebível. Não vou revelar mais nada, leia. Vale a pena. É um conto antológico e conhecido em sei lá quantos países. Do mesmo autor, só conheci um conto mais forte, que é o “Um Homem Esquisito”, que consta no lançamento da DEVIR, “Confissões do Inexplicável” com 600 páginas de contos de André Carneiro.
Adendo: A putrefação de animais e vegetais pode formar o metano (CH4) que sob circunstâncias especiais de falta de ventilação e pressão pode se inflamar expontaneamente (quando a mistura atinge 28% metano e o resto de ar) liberando uma chama azulada.
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 15h39
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Mário, o Filósofo Bebum
Este texto abaixo foi tirado (por razões óbvias de qualidade) do blog do Mário Bortolotto [http://atirenodramaturgo.zip.net/index.html]. Já falei dele aqui, algumas vezes. Ele é um cara que consegue sacar as coisas do mundo com uma lucidez e clareza extraordinárias. Para quem sabe o que é, de fato, a filosofia, não será surpreendente a idéia de que o Mário é (também) um filósofo urbano muito bom. No texto abaixo (integral e clonado do BLOG supracitado), por exemplo, ele consegue conter um tipo de combustível altamente explosivo em meia dúzia de linhas (sublinhado por mim). E parece que de um modo sossegado e até desinteressado. O Mário faz dessas coisas, como matar a Hidra de Lerna e sentar na escuridão tomando wiskey de uma garrafa de bolso. Tá nem aí pro que fez e nem quer que saibam que foi ele que conseguiu. Grande cara! E olha que estou falando somente de uma camadinha do texto. Uma que me tocou especialmente. Tem muitas outras... Só esse negócio do King já faz o dia dum cara.
TAKE IT HOME

Ontem voltando do ensaio com a banda no carro do Selvagem Amalfi. Eu tava meio que absorto ouvindo meu MP4, mas num volume baixo servindo apenas de trilha sonora pro caso do Selvagem querer falar alguma coisa, mas ele também parecia quieto, apenas um pouco irritado com o trânsito. Vejo as pessoas todas muito irritadas e as minhas vulgares análises todas me levam a crer que em algum lugar do caminho elas tiveram opções erradas, mas não querem se arrepender, porque talvez em algum ponto elas consigam se sentir satisfeitas a ponto de acreditar que tenham feito as opções certas. São os tais dos planos que não se concretizam. São as tais das vontades irrealizáveis, e todos parecem meio frustrados e infelizes, mesmo quando contam piadas e riem com sinceridade. Mesmo quando falam algo e querem se fazer notar. Mesmo quando insistem em chamar a atenção. Chamam a atenção para sua alegria, mas tudo que eu consigo ver é uma tristeza filha da puta, o tal buraco negro da alma, o tal buraco de 12 que eu disse que não dá pra encher nem com todo o whisky do mundo. Eu também já fiz planos como todo mundo e acreditei neles. A maioria não deu certo e eu fui ficando frustrado e infeliz pra caralho. Aí ontem saí de casa e fui andando pela rua. Tava meio frio, mas eu tava protegido com a jaqueta dos pára-quedistas franceses que eu comprei num brechó de lá. Fui andando pela rua e me sentindo inacreditavelmente tranqüilo. Não estou falando de felicidade ou de bem estar. Tranqüilidade não tem nada a ver com bem estar. Talvez seja só um ítem no cardápio. Passei a tarde ouvindo música e bebendo com amigos (Cassiano, Picanha e Amalfi). O Picanha preparou um genial macarrão a gorgonzola e nós ficamos lá ouvindo B.B King. Aquela capa daquele disco. Meu Deus, a capa daquele disco. O garoto olhando a guitarra na vitrine. E aí na contra-capa ele indo embora com a guitarra nas costas, pisando em poças dágua. Aquela capa. Eu já tive esse disco. Eu era um garoto e também tinha planos. Eu tive esse disco. E um dia eu vendi o disco. Tava precisando de grana pra comer. Então vendi o disco. Mas nunca esqueci daquela capa. E a gente falando tanta coisa, na cozinha, na sala, e eu pensando na capa daquele disco. E aí fui encontrando as pessoas nos bares e pensando na capa do disco. Entrei nos Parlapatões e fiquei jogando bilhar. Por sorte, demoraram pra conseguir me tirar da mesa. Não queria sentar e nem conversar com ninguém. Tava pensando na capa daquele disco. E aí quando o Eldo e o Pedro ganharam de mim e eu tive que me sentar com uma garrafa d´água na mão, não queria olhar pra lugar nenhum, eu queria ficar pensando na capa do disco. Quando olhava eu via coisas, via as bolas caindo na caçapa, os amigos conversando em outras mesas, ouvia o burburinho do bar e eu ouvia os passos do garoto nas poças dágua. Pensava em desejos que talvez não se realizassem. Pensava em estratégias de fuga. E tudo parecia tão irreal. E eu queria que muitas coisas tivessem dado certo na minha vida. E eu queria que todos aqueles planos tivessem se realizado, como o garoto ambicionando a guitarra na vitrine. Como se a vida fosse isso. Como se fosse realmente possível colocar a guitarra nas costas e sair andando pisando em poças d´água. Mas há uma tempestade no caminho. Há um lugar que você simplesmente não pode chegar. Há tanta coisa atrapalhando. E tudo que você gostaria era simplesmente isso. Esperar a tempestade passar, embaixo de algum abrigo, um toldo de armazém, uma senhora voltando pra casa com os ingredientes de uma sopa de tomate, um velho sentado na soleira sem esperança nenhuma, sequer torcendo pra chuva passar. E eu não sei mais se a tempestade vai passar. Eu nem sei mais se há um lugar no mundo pra sujeitos estranhos que decidiram não mais retrucar a sorte. Mas eu ainda não sou o velho sentado na soleira. Então é melhor devolver a guitarra pro cara da loja e sair andando sem pressa, sem guitarra nenhuma nas costas, com essa chuva fria congelando minha alma negra. E esse buraco enorme que todo o whisky do mundo jamais vai preencher.

Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 12h18
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Literatura e Ciência
Uma das coisas mais importantes em literatura é a verosimilhança. Tudo que um personagem faz tem que ser crível, dos pontos de vista lógico, motivacional, etc. Tem que ser coerente com o personagem, com o contexto e com as leis estabelecidas na obra. Quando um texto contém partes científicas (e eles contêm bem mais do que se acredita), elas devem também ser verossímeis. Acho indesculpável um escritor cometer erros crassos de qualquer desses níveis. O abominável Sidney Sheldon, por exemplo, chegava a usar gases mortais em balões flutuantes que eram mais pesados que o ar. Quer dizer, os balões não flutuariam, estariam todos no chão. Isso fode com qualquer história, a não ser, claro, que o leitor seja tão ignorante quanto o texto. Cometer erros é uma coisa perdoável. O que estou falando é que nem houve preocupação em não cometê-los. O autor inferiu erroneamente a priori que determinada coisa não era importante. Se não era importante, não coloque o nome do gás, porra! Falar que um gás X flutua e ele não flutua é o tipo de erro imbecil. Simplesmente não dá para respeitar o resto da obra de um cara que comete um erro (desleixo) desses. Nunca fale do que não domina, do que não compreende (veja post anterior sobre o dcaso da CBN). Isso me faz lembrar de um caso interessante. Lembro-me de ter elogiado um lance desses numa oficina de literatura recente. A autora, Nikki Sigaud, colocava a trama milhares de anos na antiguidade. Como ela citou exatamente a época e uma determinada configuração de estrelas no céu, fui lá e chequei previamente se a coisa estava certa. É, eu checo sempre essas coisas. Fiquei muito surpreso de ver que estava absolutamente correta toda a coisa. Só podia significar que a autora entendia E tinha pesquisado profundamente aquele assunto. Elogiei e a coisa passou. Até lembrei de um caso de um escritor de ficção científica brasileiro, com Ph.D. em astrofísica ter cometido um erro extremamente infantil num caso muito mais simples (um Ph.D. em astrofísica não tem o direito de errar grosseiramente caracteristicas estelares, assim como um médico não pode errar o lado do fígado num texto). Mas o caso de erro grosseiro que eu queria comentar agora, é do popularmente querido físico brasileiro Marcelo Gleiser. O Gleiser é um cara bom e que faz uma coisa que prezo e respeito muito, que é a de levar a ciência para o público leigo. Mas eu acho que ele exagera na "popularização". O grande Carl Sagan não fazia isso. Ele tinha o princípio de divulgar e popularizar a ciência sem nunca simplificá-la ao ponto de torná-la não verdadeira ou dúbia. Talvez o Gleiser tenha sido influenciado pela rede televisiva que o veiculava, não sei, mas o fato é que seus programas estão muito aquém de sua competência científica (exceto suas colaborações no globo-ciência, que são bem dosadas). O mesmo parece ocorrer com sua literatura. Seu romance "A Harmonia do Mundo" parece ser a tentativa de um escritor inexperiente em seguir as regras básicas dos romances norte-americanos. Tudo e todas as estruturas são replicações de clichês literários. Tipo: como deve ser um personagem? como suas ações devem corresponder com suas motivações? como deve evoluir o drama de suas decisões?: e daí por diante. Até o lance de colocar uma mocinha como par romântico rolou. Tudo isso feito de modo muito aparente. Claro que isso não tira sua importância como divulgador científico. O ramance de que falo, por exemplo, é uma das mais competentes e detalhadas tentativas de registrar a biografia de Johannes Kepler. O livro pé resultado de pesquisa meticulosa e do acesso a documentos sobre os quais poucos sortudos pousaram os olhos. Essa parte da obra é fascinante, pelo menos para um amante da ciência e da astronomia. Mas, infelizmente, eu estou fazendo esse post pra falar do que não achei legal. Ele cometeu um erro desses que falei acima. Um problema de um erro desses é que te coloca uma pulga atrás da orelha: será que ele errou só nisso? Uma bobagem dessas pode colocar toda a obra sob suspeita. O eerro foi o seguinte: na página 59 do romance supracitado, o autor diz que Kepler fechou impetuosamente um livro, abriu a janela do quarto onde estava e viu "a luz majestosa de Júpiter desafiando a luz de Marte a superá-la". Acontece que alguns parágrafos antes ele dissera que estavam em 1594 e em 1594 foi impossível ver Marte e Júpiter no mesmo céu noturno (talvez se fosse Júpiter e Vênus em dezembro, ou Marte e Júpiter um ano depois). Para mim, está claro que o autor quis enfeitar (a poesia envolvendo o leitor, outra regrinha de best selers) e não não quis ter o trabalho de verificar se aquilo realmente era possível. O autor faz questão de deixar claro que o romance foi baseado em acontecimentos factuais. Então, se Kepler não pôde ver aquilo em 1594, o que mais da história está incorreto? E, pô, eu tô falando disso não porque é um autor fraco, mas porque é justamente o tipo de autor que NÃO deveria cometer um erro desse. Claro que sempre posso estar errado, mas neste caso, para eu estar errado seria preciso se provar que os simuladores astronômicos atuais têm um erro sistemático naquele ano. Apesar disso, recomendo fortemente a leitura do livro. Talvez seja o melhor romance histórico sobre astronomia que já tenha aparecido.
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 10h44
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Grande Mário!
O Mário Bortolotto - hoje um escritor fudido de bom, dramaturgo, ator, cantor e o caralho a quatro - era um dos seminaristas que, no final da década de 70, tinham o único time de futebol de Apucarana do qual nunca conseguimos ganhar. Naquela época eu pensava que a literatura brasileira estava perdida, porque não havia nada que eu gostasse de ler que tivesse sido escrito na língua mãe. Hoje eu sei que andei lendo os textos errados e que também estava se formando naquela época um time com um novo jeitão de dizer as coisas, que hoje aprecio. O Mário é um desses caras. O texto abaixo pode ser encontrado em seu blog, o http://atirenodramaturgo.zip.net/index.html. Leiam e depois vejam se conseguem ficar longe do blog dele.
TEXTO DE MÁRIO BORTOLOTTO.
O velho entrou na casa e não reconheceu os quadros na parede. Havia passado a tarde empilhando galões de tinta e agora estava tentando lembrar das cores dos vasos na recepção da fábrica. Ficou olhando os quadros e não reconhecia as pessoas nas fotos. Ele então gritou: “Tem alguém aí?”
Ele não lembrava que morava com a filha. Ele não lembrava de sua filha. Ela apareceu na porta da sala. Seu sorriso iluminou o rosto do velho, mas ele não a reconheceu. Só gostou do fato de uma garota tão bonita estar na porta de sua sala exibindo aquele sorriso magnífico.
“Tudo bem, Pai?”
Ele sentou na poltrona e ficou olhando interrogativamente para a garota bonita que o chamava de Pai. Ela ligou o rádio e uma música triste tomou conta do ambiente. O velho sorriu e fechou os olhos. Se imaginou dançando com a garota bonita num começo de noite alguns minutos antes de ir para uma festa. Ele lembrou dos detalhes. E a garota bonita foi ganhando uma outra forma, um outro corpo, os cabelos mais ondulados, o olho ligeiramente azul, mas o sorriso era o mesmo. O tipo de sorriso que valia por toda uma vida de melancolia e infortúnio.
A garota ficou olhando para o pai e por um momento quase entrou em pânico, mas se sentiu aliviada quando o viu sorrir de olhos fechados abraçando o próprio corpo e se balançando daquele jeito que o Ray Charles costumava fazer quando ficava empolgado. Ela não conseguia entender que o pai estava partindo para algum lugar onde ela não poderia entrar. Ela não conseguia entender que o pai já não sentia medo. Ela ainda não havia se dado conta da situação. E ela se sentiu indefesa e desprotegida, mas quase feliz. Ela sabia que já haviam tirado tudo do seu pai, mas não conseguiram tirar sua capacidade de sonhar. E às vezes é só isso que um homem precisa. Às vezes é só isso que um homem pode ter.
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 21h50
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O Caçador de Pipas
Li o Caçador de Pipas, de Khaled Housseini. História legal. A gente aprende muita coisa sobre o Afeganistão, costumes, etc. Fala sobre vida dura, escolhas erradas, culpa, redenção, etc. Mas literariamente é um livro até medíocre. Cheio de receitas prontas, como se fosse um trabalho final dum curso de letras. Cheio de erros de descrição. Perde feio para qualquer Harry Potter. Sua força está mesmo é na brutalidade da história, o que já é alguma coisa.
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 20h27
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SciFi Brasileira
Eu estava lendo um artigo de Ulisses Capazzolli na Scientific American Brasil de agosto de 2003 (Sim, leio revistas velhas... tenho mais de uma centena delas que iam direto para uma pilha sem serem lidas, principalmente de 2001 a 2004, durante meu Doc.) que falava sobre o livro do colega Roberto de Souza Causo, o "Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil, de 1875 a 1950.". Ainda não li o livro. Ele está em outra pilha, a dos livros não lidos, que continua aumentando continuamente aqui em casa, o que significa que compro mais de 30 livros por ano. Conheço um pouco de ficção científica e até já andei ganhando uns prêmios e publicando na área. Mas sou obrigado a confessar que jamais havia entendido o mecanismo pelo qual a FC é julgada uma subliteratura, uma vez que, como homem de ciência, sei que a FC não é um gênero ou "sub-gênero". Ela é "inter-genérica" e "trans-genérica". Só posso pensar que que os imbecilóides que a criticam o fazem para esconder sua inépcia em entender o que a FC veicula. Não chegam a ser ignorantes, afinal de contas, são, na maioria, intelectuais, o que não os impedem de serem burros. Vou poupar todos da prova disso, mas garanto que ela existe e é fácil de encontrar (quem achar que é só uma falácia, aceite o desafio de um duelo ou simplesmente peça por provas. Elas só não cabem aqui). Só pra lembrar, antes de finalizar, não sou desses que mistura Fantasia e Horror à Ficção Científica. Acho isso uma viadagem do stream. Mas não deixo de respeitar quem o faz (embora, no íntimo, eu despreze esta classificação e os classificadores). Também não vou endeusar a FC. Elas tem bons e maus escritores assim como qualquer outro (sub-trans-inter) gênero. Mas voltando ao assunto, vejam só o que encontrei no artigo referido e, depois, me digam: Este é ou não é um povo sem alvo? Uma nação não pode ser feita só de bundas! O trecho: "Aqui (no Brasil), a ficção científica sempre foi olhada como subliteratura. O gosto dominante entre nós deriva quase sempre de um romance social, reflexo certamente de nossa história fortemente vinculada ao escravismo. Uma sociedade escravista, ao menos em princípio, prescinde da ciência e, por extensão, da ficção científica. Em compensação, é pródiga em igrejas. Estamos, deste ponto de vista, mais comprometidos com a memória que com a inteligência. Não investimos na história do futuro, como reflexo de desapreço ao passado." Acho que não é necessário dizer mais nada.
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 13h40
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Flores para Algernon
Acabo de ler o conto “Flores para Algernon”, de Daniel Keyes, publicado inicialmente em 1959, na histórica The Magazine of Fantasy & Science Fiction. Keyes foi da marinha americana, bacharel em Psicologia e mestre em literatura inglesa. Já militou nos quadrinhos da Marvel e trabalhou com feras como Stan Lee. Este conto ganhou o Hugo e mais tarde, remodelado para romance, ganhou o Nebula de 1966, os dois maiores prêmios dados a obras de ficção científica. Foi também adaptado para filme em 1968, em “Charly” que deu ao ator Cliff Robertson (o tio do homen-aranha nos filmes do cinema) o Oscar de melhor ator. A história é contada em forma de diário de um cara retardado, Charly Gordon, que passa por um experimento cirúrgico que gradativamente aumenta sua inteligência. O interessante do conto é que o leitor vai percebendo isso no diário. A própria linguagem, no início cheia de erros de todos os tipos, vai ficando mais correta e encorpada conforme o personagem vai ficando mais inteligente. Claro que a inteligência subiu a níveis insuportáveis pelos humanos mortais e que a coisa degradou depois. É muito interessante ver como Keyes conseguiu a proeza de passar isto. Definitivamente um texto imperdível. Não me lembro de ter visto este “Charly” de 1968, mas durante toda a leitura do conto eu me lembrava do filme (excelente, aliás) com a Elisabeth Shue, “Molly”, de 1999. É impossível que não tenha se baseado nesse texto. É muito interessante saber quem é Algernon e o porquê do título, mas isso eu não vou contar. Recomendo qualquer um dos dois. E antes que me esqueça, agradeço novamente ao Machado pelo presente da edição dupla comemorativa número 100 da coleção Argonauta, onde encontrei o conto.
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 15h21
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O Tiro (2006)
O tiro
No banheiro
sempre sonho
em ver um tiro
entrando pela janela.
O estranhamento de ver
o buraco redondo
aparecer de repente
e daí uma sensação molhada
depois a dor, a inconsciência
e mais nada.
(Bertoldo S.Jr.)
Escrito por Bertoldo Schneider Jr. às 22h18
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